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Antes de ser Terruá,
existia um chamado.

Uma busca por sentido, descobertas, verdades, escolhas e formas mais humanas de criar e habitar o mundo.

O mundo não bastava

Desde cedo, eu carregava uma energia difícil de conter. Um olhar curioso demais para o mundo, uma inquietação que não se satisfazia com as respostas prontas. Era como se existissem camadas invisíveis sob a superfície das coisas — e eu sabia, mesmo sem saber, que precisava atravessá-las. Na infância, tudo era impulso criativo. Os desenhos, as construções, as invenções… cada gesto nascia de um sonho complexo e colorido. Mas ao redor, o mundo parecia estreito. Os caminhos que me apontavam pareciam engessados, quadrados demais pra alguém feito de curvas e desvios. Cresci com a sensação de que as formas tradicionais de viver não me bastavam.

Sentia que havia algo fora do lugar, e esse estranhamento, aos poucos, se transformou em coragem — uma bravura silenciosa que me fazia questionar tudo e buscar outras formas de existir. Era um inconformismo artístico, mas também um desejo profundo de autenticidade. Foi essa energia, meio bruta, meio sensível, que me empurrou rumo ao desconhecido. E mesmo sem um mapa claro, comecei a caminhar.

Capítulo I

Um mundo dentro do mundo

A faculdade foi meu primeiro mergulho em outra realidade. Ao contrário do que eu esperava, não foi um espaço de contenção — mas de expansão. Foi ali que descobri que o mundo era mais vasto do que eu podia imaginar.

Me vi cercado por uma pluralidade vibrante: gente de todos os cantos, sotaques, crenças, visões de mundo. Era como atravessar um portal. Comecei a entender que existiam outras formas de pensar, sentir, comunicar — e isso me fascinava. Me encantei com o estudo da comunicação, com a potência de criar pontes entre ideias e pessoas, com o desafio de encontrar beleza até mesmo nos conflitos.

Ao mesmo tempo, descobri o prazer de lidar com o público. Trabalhei como garçom, cozinheiro, vendedor de sanduíches, gerente de bar… Em cada uma dessas experiências, aprendi sobre escuta, improviso, empatia e ritmo — lições que jamais esqueci. Foram escolas informais, mas profundas.

Mesmo nesse novo mundo, a inquietude seguia viva. O que me movia era mais do que aprender uma profissão — era o desejo de entender a vida por outros ângulos. E foi assim que se consolidou uma indomável vontade de sair por aí, com uma bicicleta e um propósito: descobrir outras formas para se viver nesse mundão.

Capítulo II

Em busca de outros caminhos

Não era sobre a bicicleta, mas sobre o gesto de partir. Era o corpo que queria andar, era a alma que pedia estrada. Não era só um meio de transporte — era símbolo de um rompimento. Eu queria sair da rota, ver com os próprios olhos, sentir com o corpo. Pedalei com o propósito de encontrar outras formas de viver. Levei comigo poucos objetos e um monte de perguntas.

A estrada me levou a lugares que os mapas não mostram. Acampei onde a estrada possibilitou, cozinhei em fogueiras e aprendi que muitas coisas estão mais disponíveis do que acreditamos: às vezes a apenas uma conversa de distância. Conheci caiçaras, indígenas, quilombolas e tantos outros agrupamentos que carregavam saberes valiosos. Cada parada era uma troca, cada conversa uma fresta que se abria para uma nova maneira de enxergar o mundo.

Foi ali que ouvi falar pela primeira vez sobre permacultura, agroecologia, bioconstrução. Palavras que me soavam como chaves. Comecei a entender que a terra também ensina, e que é possível construir respeitando os ciclos da natureza. Chegando em Paraty, conheci o Coletivo Rucache, da Patagônia, com o qual aprendi que pertencimento, potência e propósito não são conceitos soltos — são práticas vivas.

Nesse período, algo em mim se reorganizou. Sentir o barro nas mãos, olhar nos olhos das pessoas, viver no ritmo da natureza… tudo isso me devolvia uma paz que eu nem sabia que estava procurando. Era como voltar pra casa — uma casa que eu ainda não conhecia.

Capítulo III

A terra ensina

Trabalhar com a terra foi, ao mesmo tempo, reencontro e revelação. Junto ao Coletivo Rucache rumei para a Patagônia, terra onde os dias começavam cedo e terminavam com o corpo exausto e a alma acesa. Senti que havia ali um caminho onde minhas inquietações encontravam lugar para pousar — um ofício em que o fazer era também cura.

Após três meses nesta imersão, segui viagem até o Chile, onde vivi por mais 3 meses na comunidade escola El Manzano. Entre plantações, rebanhos e construções, aprofundei meu mergulho na Permacultura.

Aprendi sobre comunidades e coletivos, sobre sistemas de gestão e cultura regenerativa. Lá eu recebi as formações em Design de Permacultura e Design de Ecovilas, e fiz meu estágio na Construção Natural. Mas mais do que as formações, fui aprendendo a escutar: a matéria, o tempo, os outros -a mim mesmo- e a conciliar estas vozes para um objetivo comum.

Ali, descobri que construir pode ser um gesto de reconexão. Que cada cantinho de uma casa pode contar uma história. Que os materiais carregam alma. E que ensinar e aprender são duas faces do mesmo barro.

Capítulo IV

Quando ensinar é ser

Voltar ao Brasil foi como abrir um livro antigo e reencontrar palavras que agora faziam sentido. Compreendi que ensinar era um chamado. Comecei a partilhar o que havia aprendido: a construir com propósito, cuidar da terra e transformar espaços em morada para o corpo e para a alma.

Vieram as oficinas, os cursos e encontros com quem também buscava outro jeito de viver. Nesse movimento, encontrei meu próprio jeito de estar no mundo: com atenção, presença e afeto. Ensinar era um ato de retribuição. Um modo de semear caminhos e afirmar, com o corpo inteiro, que outras formas de viver — e construir — são possíveis.

Em 2019 fundamos o Coletivo Vir a Ser. Criamos projetos, levantamos obras, plantamos ideias. Mesmo quando a pandemia freou o passo do mundo, algo dentro de mim seguia em movimento e já não era mais possível voltar atrás.

Capítulo V

Voltar com os pés na terra

O silêncio imposto pela pandemia trouxe, junto com o medo e a incerteza, um convite ao mergulho. Com as atividades do coletivo paralisadas, foi preciso olhar para dentro e escutar com mais atenção o que pulsava. O mundo lá fora desacelerava, e dentro de mim, algo começava a tomar forma com mais clareza.

Entre formações, leituras e reflexões, aprofundei-me ainda mais nos caminhos da bioconstrução e dos acabamentos naturais. Descobri mestres, referências e materiais que me mostraram que havia ali, naquele ofício, uma linguagem própria — um tipo de poesia que se esculpe com as mãos.

Foi nesse período que conheci o trabalho do mestre artesão Cobi Shalev, e embarquei para Minas Gerais para um curso que se tornaria mais um divisor de águas. Ali, a cal me revelou sua alquimia: um material vivo, ancestral e profundo, que exige escuta, tempo e presença. Encantei-me não só pelas técnicas, mas pelo estado de espírito que ela evoca. A prática nos acabamentos me atravessou como uma flecha certeira — e me chamou de volta para casa.

Ao contrário de tudo que eu já havia vivido, trabalhar com o acabamento era concluir, finalizar, dar o toque final à forma que antes era apenas estrutura. Um paradoxo para quem sempre abriu caminhos mas teve dificuldade em terminar o que começa. Talvez por isso tenha sido tão transformador: era como curar uma parte de mim através do próprio fazer.

Capítulo VI

O chamado da cal

Depois daquele curso, nada mais foi como antes. Voltei com as mãos sujas de cal e o coração cheio de perguntas — e respostas. A intensidade do que senti me levou a mergulhar fundo nesse universo: estudei, testei, errei, aprendi. Fui entender não só a técnica, mas o simbolismo por trás dela. A cal não era apenas um material de construção — era memória mineral, era tempo acumulado, era transformação. Um convite à calma, à presença e ao cuidado.

Comecei a enxergar a arquitetura como um campo de expressão poética e política. Os espaços que criamos moldam nossos afetos, nossos hábitos, nossa forma de existir no mundo. E os materiais que escolhemos dizem muito sobre as histórias que queremos contar. Trabalhar com a cal, com a terra, com o gesso e com os pigmentos naturais era, para mim, uma escolha ética, estética e espiritual.

Nesse mesmo período, conectei-me com artesãos e profissionais internacionais, busquei referências, troquei experiências. Recebi convites para atuar fora do Brasil e aceitei um desafio que marcaria mais uma virada: fui para Belize trabalhar em uma grande obra de acabamento natural, integrando uma equipe internacional como gestor e responsável técnico. Uma imersão que expandiu ainda mais minha visão sobre o potencial desse ofício — e também sobre minha própria capacidade.

Voltei ao Brasil com outra percepção: mais madura, mais firme. Entendi que minha trajetória me preparava para algo maior. Não apenas executar, mas também inspirar, ensinar, cultivar. Foi ali que nasceu a Terruá — como consequência inevitável de tudo o que fui e vivi até ali.

Capítulo VII

Onde tudo se encontra

A Terruá nasceu como se brotasse da própria terra — da mistura entre vivência e vocação, entre técnica e afeto, entre matéria e espírito. Ela é, ao mesmo tempo, caminho e destino. Um espaço de criação onde cada detalhe importa, onde o gesto é presença e onde a beleza carrega verdade.

Tudo o que vivi se entrelaça aqui: a inquietação da infância, os sonhos que desafiaram padrões, as descobertas na estrada, o prazer em ensinar, o respeito pelas culturas ancestrais, a paixão pelos materiais naturais, o olhar sensível da arte e a busca incansável por sentido. A Terruá é a síntese dessa trajetória.

Mais do que uma empresa, é um projeto de vida. Um convite para transformar a forma como construímos, habitamos e nos relacionamos com o mundo. Porque cada parede tem algo a dizer. E, quando feita com alma, toda superfície se torna um espelho de quem somos.

Capítulo VIII

Esta é a trilha de Terruá,
fazendo da vida o próprio ofício.

Todo ambiente tem a
sua própria essência.

Nosso ofício é revelar essa expressão
com elegância e intenção. É beleza que
perdura e respeita.

Uma jornada redefinindo
a arte de construir.

Há cinco anos, a Terruá une saberes
ancestrais à técnicas modernas para criar
obras que encantam e inspiram.